Recentemente uma cliente, interessada em uma consulta sobre profecções, firdaria e retornos solares perguntou se a profecção indo para Leão ativaria o sol como senhor de leão ou Urano, o planeta externo natal que ela tem em Leão.

Achei a dúvida pertinente para explicar aos leitores novos e antigos como diferenciar a astrologia tradicional da popastrologia e vários critérios para decidir o que uso ou não. Claro que isso não vai mudar a cabeça dos que já foram “iluminados”, como os terra planistas e antivaxxers, qualquer argumento, a favor, contra e indeciso é irrelevante. Mas para quem tem a questão de “o que” e “se” usar, algumas guias para decidir sem ter que ficar se baseando em palpites de grupos de facebook e quem tem o instagram com mais views.

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Coerência com os princípios do que veio antes

Todas as coisas novas tem que ter coerência com o que veio antes. É um princípio básico. Por exemplo há astrólogos tradicionais que usam os 3 porquinhos, urano, netuno e plutão, e outros que não. Mas nenhum usa Aquário como o “regente” de Urano, e se você encontrar um astrólogo que se diga tradicional fazendo isso você não precisa de nenhuma outra indicação para saber que é picareta. Isso basta.

Por quê? Os astrólogos tradicionais que usam os 3 porquinhos (eu não uso*) só o fazem como se fossem “estrelas fixas”. Do mesmo jeito que você vê Marte com Aldebaran como um marte que tem um “tom” (meio tarot) de marte com algo que traz vitória, mas também violência e força, um Marte com Plutão dá mais ou menos a mesma tonalidade, sem implicar diferenças sobre outras estruturas do mapa. Isso adiciona mais um tema sem mudar todas as partes do relógio.

* Eu só uso de vez em quando dentro do esquema criado por Barbault para astrologia mundana. De resto eu acho que os 3 porquinhos trazem overfitt – eles explicam demasiado bem os eventos passados, mas viciam o astrólogo que fica cego para o mapa sem eles. E eles não se dão bem para os eventos futuros.

Já se você usar os 3 porquinhos como regentes, você automaticamente destruiu todo o esquema anterior (brevemente, a ordem caldeica, relações entre os planetas e os aspectos, relações de séquito) que dava base teórica às regências.

Então, em uma única marretada você quebrou toda a cadeia teórica que trouxe sua disciplina por milhares de anos, então sua alteração foi ruim.

What Is Coherence in Composition?

Revoluções em Ciência

Permitam-me entrar em uma tangente por 10 ou vinte páginas (ou passe para o próximo tópico). Imagino que neste momento tenha alguns leitores que já foram embora e outros argumentando sobre o “desenvolvimento científico” que é em si outro cesto de gatos difícil de abrir, sobre por exemplo se devemos falar em ciência em astrologia sem cair no cientificismo. Mas quero apenas colocar um ponto pouco sabido – mesmo nas mais importantes revoluções científicas, em que as teorias clássicas fizeram previsões erradas e vieram novas, como a Relatividade, a Mecânica Quântica, etc, elas não simplesmente apagaram tudo que veio antes. A mecânica de Newton não parou de funcionar com Einstein:

  • Em velocidades baixas e campos gravitacionais baixos a Relatividade funciona exatamente como a mecânica Newtoniana descreve e esta última é muito mais fácil
  • Para objetos muito grandes, a Mecânica Quântica os descreve exatamente como a Física Tradicional.

Então revoluções na ciência NAO significam que veio um fulano, digamos Einstein, e falou “não gosto da cor da casa, vou pintar tudo de roxo” e reconstruiu tudo. Na verdade, o primeiro ponto difícil para uma nova teoria é que tudo que foi construído antes tem que continuar, e ainda tem que trazer coisas novas. Usando uma analogia, se a cozinha e a sala já estavam construídas, Einstein teve que criar os corredores e quartos e banheiros com o trabalho adicional de não tocar no que já tinha sido construído.

Por isso justamente que, apesar de sabermos que a teoria da Relatividade tem furos fazendo água, tem sido quase impossível criar uma teoria que englobe tudo que a Relatividade trouxe e que ainda integre novas coisas, como Matéria e Energia Escura.

Compare isso com as pessoas que “fizeram sua própria pesquisa” de que a Terra é Plana, que a Relatividade não existe, na verdade [insira combinação estranha de energia tempo realidade dimensões] ou que vacinas causam autismo em fetos abortados. Em todos esses casos o maior fator em comum (fora arrogância e outros problemas cognitivo-emocionais) é a ignorância de tudo que veio antes, também conhecido como o especialista de internet.

Mas lembre que, em astrologia, infelizmente todo mundo é um especialista de internet e isso não é de agora. E quem aprendeu em uma escola ou com um professor não está, necessariamente, muito melhor, infelizmente. Mas tenho orgulho de dizer que meus alunos, pelo menos, sabem que Saturno oposto ao sol está automaticamente retrógrado, ao contrário de algumas “autoridades” que vendem livro e palestra.

The Life-Science Revolution. – Innoplexus – Medium

É impossível mudar só uma coisa

Minha posição é que, dentro do possível, conceitos tradicionais devem ser usados apenas com elementos tradicionais. Ou seja, não funciona, como a autoridade fez, fazer profecção “da lua até o plutão de Britney Spears”.

Eu comparo isso a pessoas que são malabaristas de astrologia tradicional, moderna e védica, que não querem aprender nenhuma das três mas querem misturar cada uma dentro de sua conveniência. Então usam firdaria com zodíaco sideral, varshaphala com progressões secundárias, analisam dashas usando midpoints.

Como em tudo na vida, escolha um caminho e fique nele. Eu sei que no Brasil é costume fazer pizza de Estrogonofe, mas só porque o Tribunal de Haia não se pronunciou a respeito não significa que seja uma prática ética.

A consequência óbvia é que as pessoas estão combinando sabores que não misturam, peças que não encaixam, sem sequer saber o que está em jogo.

Um exemplo simples. A chamada “lua fora de curso“. É um conceito tradicional, mas que ainda é usado. Mas a maioria não sabendo que é um conceito tradicional, ou não se importando, usa com urano, netuno e plutão (dependendo do freguês também com quiron e companhia). Qual a consequência disso?

A lua fora de curso, na definição mais conhecida, é o período até a lua sair do signo depois que ela fez seu último aspecto, então por exemplo se ela fez seu último aspecto com saturno no grau 15, ela passará metade do signo fora de curso. Quanto mais planetas, asteroides e outros você adicionar, obviamente diminuirá o período em que a lua fica fora de curso – dependendo do ano, se você tiver um planeta como Urano no grau 29, você praticamente não terá nenhum momento de lua fora de curso.

Uma “pequena” mudança na definição causa grandes diferenças, por isso que muitos começaram a tratar fora de curso como se fosse uma tragédia, oh, meu deus, a lua está fora de curso! – isso porque quanto mais planetas você colocar, menos frequente ela é… usando apenas os planetas da definição correta, você tem vários períodos fora de curso a cada 2 dias e pouco.

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Quando uma mudança quebra toda a estrutura

Como um terraplanista querendo defender algo que “fez sua própria pesquisa”, frequentemente popastrologia, por não conhecer a estrutura, cria afirmações que destroem todo o arcabouço.

Vamos pegar as dignidades. Para a pop astrologia o signo de touro só tem duas funções:

  • dizer que um grupo de pessoas que nasceu com o sol lá são teimosas e comilonas
  • “era” regida por vênus, “mas para mim” é regida por ceres/Eros/asteroide 2345.

Mas em astrologia de verdade temos as seguintes funções:

  • -vênus rege uma casa e será a responsável pelo sucesso ou fracasso e administração dos temas dessa casa, digamos amigos.
  • vênus será a dispositora de qualquer planeta que estiver em touro, determinando sua personalidade, sua capacidade ou não de atuar, para o bem ou para o mal.
  • A qualidade de cada planeta em touro será determinada pela dignidade que ele tiver em touro – a lua estará exaltada, marte estará exilado.
  • os planetas regidos por vênus sempre são opostos por marte – um é um inferior e outro superior, muito importante para temas de combate e de astrometeorologia.
  • o poder de um planeta também está determinado pelas subdivisões dos signos que as pessoas não conhecem porque não existe em pop-astrologia, como os Termos Egípcios, Decanos, Mansões lunares.

Quando você “dá” a dignidade para Vesta, enquanto plutão “pega” escorpião, todo o esquema fica destruído e não temos mais planetas inferiores opostos a superiores, não temos mais os benéficos em sextil ou trígono às luzes, não temos mais os planetas seguindo a ordem caldeica.

Por exemplo a ordem caldeica gera as horas planetárias; os aspectos entre planetas inferiores e superiores comanda o fluxo de chuvas em astrometeorologia.

Plutão não está diferente em capricórnio do que em aquário porque ele não tem dignidades porque o povo de pop não conhece esse conceito (apesar de já vi um picareta tentar criar termos para plutão, mas o bom da internet é que a cacofonia não permite que as modas durem mais que duas semanas).

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Eu recomendo usar os 3 porquinhos em astrologia tradicional?

Não, mesmo usando como estrelas fixas, no geral eu não recomendo – adiciona muitos novos aspectos, pontos e pior, “explicações”. Fica muito fácil “explicar” o passado, ou seja, criar overfitting, e quanto mais se explica o passado fica mais difícil ver o futuro.

Minha recomendação para os alunos é sempre coloque essas coisas na caixinha por enquanto. Depois que aprender a fazer o básico DIREITO, daí você abre e vê se adiciona alguma coisa. Mas a experiência mostra que quem aprende só com os 7 nunca tem necessidade de ficar adicionando planetoide Shiva. Mas quem já aprende com uma muleta nunca consegue abandoná-la.

Como achar um astrólogo que não seja pop

Se estiver interessado em análises do mapa natal, horárias, eletivas, etc, e também em cursos veja nossa página de consultas.

Comments

  1. Adorei o “iluminados” e mais ainda “os ttės porwuinhos”. Melhores termos do que esses para os adoradores do “new age”, eu desconheço. PARABÉNS

    1. Obrigado pelo apoio
      Acho que gratiluz seria mais atual mas também é um modismo que tomara desapareça logo
      Os 3 porquinhos é culpa de meu professor de sociologia que chamava assim durkheim, marx e weber.
      ab

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